Sexta-Feira, 24 de Novembro de 2017
 
 
EU VENCI O CÂNCER
20-10-2017 | Créditos: Susana Cardoso

Ela é uma dessas guerreiras que não se intimidaram diante da doença mais ameaçadora e que atinge milhares de pessoas todos os anos: o câncer. Mesmo diante de um diagnóstico cruel e fatídico, ela optou por lutar com todas as forças pela vida. E venceu. Conheça a história da professora Dayse Nara Alves Guimarães, de 61 anos, que passou pela experiência de enfrentar um câncer de mama raro, mesmo tendo o cuidado de fazer o autoexame e mamografias regularmente.  

 

“Eu sempre fiz o autoexame e mamografia, desde os meus 40 anos. Em 2011, eu fiz uma mamografia em abril e não deu nada de anormal. Mas sempre fui ao médico duas vezes por ano. Em outubro do mesmo ano, ao tocar minha mama direita eu senti um caroço duro bem grande, do tamanho de uma tampinha de garrafa pet. Este caroço desenvolveu rápido. Ele nasceu e cresceu entre abril e novembro, ou seja, em sete meses.

Quando eu fui ao médico, ele fez o exame e sentiu o caroço. Ele mandou que eu fizesse mamografia e ultrassom e constatou que havia realmente um fibrodenoma, mas ‘não era nada grave, coisa simples, porque tinha o formato arredondado e certinho, diferente dos cancerígenos, que são estrelados’. Mesmo assim, ele pediu para fazer uma biópsia. Assim eu fiz, e no dia 30 de dezembro pequei o resultado. Mais uma vez, o médico disse que não era nada, que tudo indicava que era mesmo um fibrodenoma. Ele me receitou um remédio em janeiro, e nada de o caroço desaparecer. Voltei ao médico no dia 8 de março daquele ano e o doutor me disse: – agora eu vou te encaminhar para Uberaba.

A consulta em Uberaba foi marcada para o dia 18 de abril de 2012. Ao me examinar, o médico de lá disse: – não estou gostando nada disso. Falou em cirurgia, quimioterapia e me pediu nova biópsia. Fiquei tomada pelo medo, assustada e pensei logo quantos anos de vida teria a partir daquele momento.

Aqueles dias de espera do resultado foram de muita angústia e sofrimento. Mas pensei: – não posso ser covarde. Fiz exame no dia seguinte à tarde. A médica que me atendeu disse que não tinha nada grave e que o tumor estava apodrecendo. O médico também constatou que não era grave, mas marcou a cirurgia, que foi feita no dia 22 de junho. O procedimento demorou uma hora e foi retirado um quadrante da minha mama, no Hospital Hélio Angotti.

No dia 10 de julho foram retirados os pontos, em Araxá. No mesmo dia, ligaram da clínica de Uberaba avisando que o médico marcou retorno. Eu teria que fazer nova cirurgia. A biópsia revelou que era câncer. Não era do tipo glandular e nem hormonal, era um câncer raro. Sem demora, marcamos a cirurgia debaixo do braço para ver se tinha ramificações do câncer. Fiz vários exames e em agosto de 2012 eu fui novamente para a mesa de cirurgia.

Não deu linfonodo sentinela e nenhum outro, então eu tinha que esperar para fazer um exame em Uberaba. O resultado foi um triplo negativo, que não é hormonal, e o único  tratamento é a quimioterapia. Foi então que o meu mundo caiu, pois para mim a químio era sinônimo de morte. O oncologista clínico informou que seriam oito sessões de quimioterapia, explicou todo o procedimento e fez um questionário. Ele disse que aquela era a única solução, pois era ‘ um câncer raríssimo, grave, agressivo, mas um câncer bom’. Não entendi como pode haver câncer bom, mas optei pelo tratamento, porque não queria morrer.

Comecei a quimioterapia na outra semana e terminei as oito sessões no dia 22 de fevereiro de 2013. Só quem já passou pela quimioterapia sabe que é a pior coisa do mundo. Muita gente desiste antes de terminar. Ela mata todas as células cancerosas, mas também as células boas. Dá muita fraqueza, a gente fica com baixa imunidade, os cabelos caem, é uma péssima sensação. Então, fui no salão do John Romualdo, que tem um trabalho maravilhoso no atendimento das pessoas que enfrentam o câncer. Ele foi tão legal que eu não senti a dor da perda dos cabelos. Ele me passou muita tranquilidade e eu nem chorei quando me vi careca. O John me emprestou uma peruca, porque eu não conseguia usar lenço. Esquentava muito no calor. Quando terminou o tratamento, o meu cabelo voltou a nascer.

Foram 33 sessões de radioterapia. Comecei no dia 7 de maio. Eu ficava triste, mas não deprimida. Chorava à noite, escondido. As pessoas acham que você é forte, mas a gente fica muito fragilizada. Os filhos moram fora e eu contava com o meu marido e os amigos para me ajudarem. Eu pensava na morte, mas não aceitava essa possibilidade.

         No primeiro dia de quimio fiquei agoniada, deitada numa sala com outras pessoas na mesma situação. Pensei que ia morrer. Chorei muito e chamei a psicóloga. Já imaginava os meus filhos chegando para o velório. Foi aí que eu encontrei uma amiga de 76 anos que estava fazendo a quimio no mesmo dia. Ela já estava no segundo câncer, mas demonstrou a maior animação, me deu muita força. Eu então me apeguei à fé, crendo que Deus ia me curar.

A quimio vermelha é muito difícil. A gente não consegue ficar de pé, porque baixa muito a imunidade. Precisa tomar remédio para enjoo e alergia. Eu não dava conta de comer nem beber água, depois que chegava em casa. Comia forçada, nos próximos seis dias. Tomava muito suco de frutas e verduras. Para tomar banho, tinha que sentar, tamanha a fraqueza. Eu ficava cinco dias de repouso e no sexto dia eu ia trabalhar na escola. Trabalhar era tudo de bom. Encostar e ficar pensando na doença é pior.

Não foi preciso retirar o seio, só um quadrante. Não ficou nem um sinal. Nas quatro primeiras sessões de químio fiquei muito mal. A partir da quinta sessão, o remédio ataca os neurônios e a gente cai muito, quebra tudo o que pega. Doía o corpo inteirinho, mas a gente vai acostumando. As pernas doem demais. Finalmente, no dia 22 de fevereiro terminou o tratamento da quimio e em maio, a radioterapia.

Agora eu faço controle uma vez por ano. Faço mamografia sempre e levo para os médicos avaliarem. Segundo eles, a chance de ter câncer de novo é a mesma de qualquer pessoa. Logo após o diagnóstico, eles nos dão a opção de fazer ou não o tratamento. Muita gente não quer passar por tudo isso e prefere se entregar à doença. Mas eu decidi viver. E estou curada. Venci o câncer!”

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