Sexta-Feira, 24 de Novembro de 2017
 
 
PARTIU CARONA SOLIDÁRIA
10-11-2017 | Créditos: Susana Cardoso

O trágico assassinato de Kelly Cadamuro, de 22 anos, encontrada morta no dia 2 de novembro, após uma carona marcada por WhatsApp, não chegou a assustar a galera acostumada a utilizar este sistema informal de viagem. Os grupos de caronas solidárias remuneradas movimentam um número grande de pessoas, que oferecem e contratam este serviço através de sites e aplicativos como WhatsApp e Facebook.

Embora muitos concordem que esse esquema não seja totalmente seguro, ninguém quer abrir mão das vantagens das caronas solidárias. A principal delas é o gasto com a viagem, que geralmente sai pela metade do preço da passagem do ônibus intermunicipal.  De Araxá a Belo Horizonte o caroneiro paga em torno de R$ 60 e de ônibus, ele desembolsaria cerca de R$ 120.

            Érica Soares Pereira, 29 anos, enumera outros benefícios: “De carona existe a possibilidade de você ficar em uma localização melhor do que o ônibus te deixaria e as viagem são mais rápidas. A gente viaja de Araxá a BH tranquilamente e com segurança, gastando apenas cinco horas, enquanto que de ônibus você gasta seis horas ou mais. O ponto de parada é péssimo, o lanche é caro e ruim. De carro você pode escolher o melhor local para lanchar.”       Érica afirma que se não fossem as caronas solidárias ela não teria como ver a família todo final de semana. “Com as caronas isso se torna possível. Eu não teria a mínima condição de desembolsar uns R$ 240 (passagens de ida e volta) por final de semana”, ela diz.

            A estudante Brenda Evelyn Silva, 23 anos, acrescenta outros itens que tornam as caronas mais atraentes, como o fato de conseguir viajar em horários flexíveis, que às vezes os ônibus não oferecem. Outro diferencial é que os condutores geralmente apanham o passageiro em casa e o desembarque é em um local específico, combinado entre eles. Brenda é administradora de dois grupos de caronas Araxá-BH no WhatsApp cuja finalidade, segundo ela, é facilitar o contato de quem procura e oferece caronas nesse trecho. Um dos grupos é vinculado ao grupo de caronas BH/Araxá do Facebook.

                O Técnico eletrônico Wesley Glauber dos Santos Lemos, 34 anos, vai a BH de 15 em 15 dias para ver as filhas. Ele sempre oferece carona para economizar nas despesas com combustível. “Fica mais econômico, 50% mais barato que viajar sozinho ou de ônibus e, além disso, a gente sempre tem companhia”, pondera. 

 Pé na estrada com segurança

  Euclides de Sena, 44 anos, é motorista dos aplicativos Uber, Cabify e 99Pop em Belo Horizonte. Nos finais de semana, ele viaja para visitar a filha em São Lourenço - Minas Gerais e oferece carona para diminuir o custo da viagem. Segundo ele, o transporte de passageiros tanto na capital quanto nas rodovias é totalmente inseguro, mas, diante do desemprego e da atual crise econômica do país, esta tem sido a única alternativa para algumas pessoas.  

Na opinião de Érica Soares, as caronas oferecidas pelo grupo do whatsapp não são seguras, mas viajar de ônibus também não é. Sobre o episódio da morte de Kelly Cadamuro, ela enfatiza: “O problema é que no Brasil a justiça é muito falha. O assassino tinha várias acusações de estelionato, furto, roubo e estava foragido. A moça foi mais uma vítima, como tantas outras, dessa nossa sociedade falida”.

Ao contratar ou oferecer carona solidária, uma boa tática para evitar surpresas na viagem é procurar conhecer a pessoa com quem se vai pegar estrada pela primeira vez. “Com um pouco de papo é possível identificar intenções. Isso vale tanto para passageiros como para motoristas. É importante conversar antes, saber o que a pessoa está indo fazer na cidade... Caso seja passageiro, perguntar as condições do carro, número da placa, evitar pegar carona se a pessoa estiver sozinha sem mais nenhum passageiro, e passar essas informações para pessoas do seu convívio”, aconselha Brenda Evelyn.

Pelo visto, o caso Cadamuro é visto como uma “fatalidade” pelos usuários de caronas solidárias. Para Wesley Glauber, este foi mais um caso de violência no nosso país. “Ela poderia ter sido morta em um assalto, por vingança, dentro de casa, na rua, na escola. Hoje vivemos sem segurança nenhuma. Temos casos em que pessoas são assassinadas e abusadas sexualmente dentro da própria casa ou por educadores, por amigos, líderes religiosos. Infelizmente, no caso dela foi por um caroneiro” opina. O técnico em eletrônica sugere algumas medidas de precaução para se evitar problemas, constrangimentos e perigo nas viagens. “Em primeiro lugar, pedir informações sobre o caroneiro, se possível que ele envie um documento com foto. Perguntar destino, telefone de contato, onde trabalha. Depois, pedir informações no grupo do WhatsApp sobre a pessoa. Essas dicas servem também em relação ao condutor.”

Uma ferramenta útil para quem oferece e procura carona para viajar é o site www.blablacar.com.br. Todos os membros são cadastrados, inclusive com link para o perfil no Facebook. Condutores e passageiros podem interagir através do site, e-mail, telefone, Messenger ou WhatsApp, para combinar a carona. A BlaBlaCar, que tem origem francesa e foi fundada em 2006, é a maior plataforma de caronas do mundo e completou um ano de atuação no Brasil, com mais de 1 milhão de assentos oferecidos. A adesão dos brasileiros ao serviço fez com que o Brasil se tornasse um dos principais mercados fora da Europa para a empresa.

A plataforma funciona assim: tudo começa com a publicação de caronas pelos condutores, que apontam sua rota e os assentos disponíveis. Passageiros interessados acessam a BlaBlaCar para encontrar lugares vagos a partir de seu destino. Em seguida, condutores e passageiros se conectam para dividir os custos da viagem de longa distância e combinar os detalhes. A empresa disponibiliza o máximo de informações possível para que ambos tenham confiança em compartilhar a viagem com um estranho, inclusive com os dados do veículo que será utilizado.

 Mercado Promissor

 Sander Bruno Ferreira, 32 anos, há três anos começou na atividade de caronas solidárias, fazendo o trecho Uberlândia – Araxá – Belo Horizonte. Hoje ele tem um negócio estabelecido, com uma equipe de funcionários e quatro veículos circulando todos os dias da semana, em diversos horários. O que promoveu o crescimento deste tipo de transporte, segundo ele, são os altos preços cobrados pelas empresas de ônibus intermunicipais. Para garantir a clientela, Sander Bruno oferece conforto e comodidade, além de economia. As vans e outros carros usados nas caronas possuem ar condicionado, wifi e whatsapp liberado. O preço da passagem de Araxá a BH é R$ 70.

Mas para garantir a credibilidade do seu negócio, Sander Bruno diz que segue as normas de segurança e legalidade. “Eu tenho autorização do DER para trabalhar neste ramo, pago seguro dos meus carros e dos passageiros, cuido da manutenção dos veículos. A minha clientela já me conhece e sabe que pode viajar tranquilamente. É importante ter credibilidade, porque muitas pessoas oferecem carona, mas nem todas oferecem segurança ao caroneiro ou têm experiência em estradas”, comenta o empresário.

 De acordo com o delegado de trânsito de Araxá, Renato de Alcino Vieira, não há nenhuma vedação na lei para a prática de carona, mas, havendo cobrança de preço, poderá configurar exercício ilegal de atividade. A fiscalização do transporte de passageiros em âmbito municipal (coletivo, táxi) é feita pelas prefeituras; a intermunicipal cabe ao DER e a interestadual. ao Dnit.

  “O problema não é a carona, mas dar carona a desconhecidos é algo que não se deve fazer. No passado, ao invés de aplicativo, usava-se o polegar. Tanto ontem, quanto hoje, o perigo é quando se dá carona a pessoas estranhas”, sinaliza o delegado. Segundo ele, a punição para a prática de transporte ilegal é a pena do artigo 47 da Lei de Contravenções (exercer profissão ou atividade econômica ou anunciar que a exerce, sem preencher as condições a que por lei está subordinado o seu exercício: Pena - prisão simples, de quinze dias a três meses, ou multa).

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