Sexta-Feira, 24 de Novembro de 2017
 
 
UMA PROSA COM O TONINHO
10-11-2017 | Créditos: Susana Cardoso

Em um bate-papo informal com a reportagem do Jornal Correio de Araxá, o ex-prefeito Antonio Leonardo Lemos Oliveira aborda temas nacionais e locais. Ele avalia o atual quadro da economia, discorre sobre as mudanças propostas pelo governo Temer e avalia o VI Fliaraxá

Jornal Correio de Araxá - Estamos amargando uma grave crise econômica, seguida de recessão. No entanto, os indicadores sinalizam com uma melhoria neste quadro e um crescimento gradativo da economia.  Na sua opinião, já dá pra ver uma luz no fim do túnel?

Antônio Leonardo - Ao longo dos últimos três anos, a estagnação econômica derivada do PIB negativo e a perda do controle dos indicadores macroeconômicos trouxeram consequências desastrosas para o país. Uma crise econômica sem precedentes, alimentada por uma outra crise, a política. Os resultados, todos conhecemos.

Ao longo desse segundo semestre de 2017, nota-se um certo descolamento da crise política em relação à macroeconomia. Com os cuidados que o momento ainda exige, alguns pilares estão sendo reconstituídos de forma a nos tirar do cenário pessimista, abrindo uma perspectiva melhor para 2018. A inflação está sob controle, também em função da menor circulação da moeda e, consequentemente, do baixo consumo. As taxas de juros estão mais palatáveis e há sinais de recuperação da atividade industrial e do nível de emprego, mesmo que incipientes. Nada que possa ensejar uma retomada do crescimento de curtíssimo prazo, mas a reação do PIB é fruto dos movimentos da cadeia econômica, o que é positivo. O descontrole das contas públicas continua a ser o grande abismo.

 

A aprovação da reforma trabalhista, que entra em vigor agora em novembro, trouxe divergência de opiniões tanto entre os políticos quanto entre a classe trabalhadora e o empresariado. Temer prometeu minimizar os efeitos desta reforma, através de medidas provisórias, mas até agora não cumpriu. Qual a sua análise sobre as mudanças na CLT?

Se a sociedade é mais conservadora ou pouco motivada, as resistências são ainda maiores. Se os problemas detectados não são enfrentados no tempo certo, o represamento aumenta o desafio de resolvê-los. Soma-se a esse contexto o nível de desinformação ou o mau uso da informação. Uma temática como a da reforma trabalhista deveria ser encarada como uma oportunidade de adequação das leis trabalhistas, preparando o país para a nova ordem mundial econômica e social que se apresenta. Obviamente, a tese da “flexibilização” defendida por muitos, tem a ver com a necessidade de facilitar a empregabilidade e de tornar as empresas nacionais mais competitivas. O mundo mudou, as relações trabalhistas estão sendo revistas em diversos países, o sindicalismo de resultados tende a prevalecer.

O que gera espanto é o baixo ou quase nenhum envolvimento das pessoas nas questões de grande interesse. De repente o ponto mais importante ou de reclamação no âmbito da reforma passou a ser a extinção da “contribuição compulsória” sindical, enfrentada na reforma aprovada. E os demais pontos reformados?

Em resumo, precisamos avançar sempre, preservando direitos fundamentais dos trabalhadores.

 

A reforma da Previdência Social é outra proposta antipopular, tanto que até o momento não conseguiu quórum no Congresso Nacional para sua aprovação. Comente, por favor.

 Sempre existirá uma fase de maturação para que determinadas medidas possam ser compreendidas. Estamos vivendo num sistema perverso de compensação social em detrimento de políticas públicas consistentes. A conta está aí para ser paga por todos. Esse preâmbulo contribui para formularmos uma opinião acerca da reforma da Previdência, essa bem mais complexa.

Ressalte-se que a reforma da Previdência não é uma questão de escolha, mas fiscal. Portanto, caberiam algumas considerações e questionamentos tais como: o trabalhador comum, o assalariado e o aposentado que ganham míseros reais, têm que pagar a conta do déficit da Previdência? Com certeza, não. Por que não se começar a exigir dos grandes devedores e sonegadores o pagamento de seus débitos? Os números do calote são assustadores. A JBS acaba de aderir ao Refis aprovado pelo Congresso e só a dívida com a Previdência passa de 1 bi. É justo? Por que não atacar os privilégios e as super aposentadorias que sangram os cofres da Previdência? Por que não se rediscutir a política de assistência social na qual a Previdência está inserida? Por que não se investir em gestão pública eficiente, gargalo das administrações públicas e porta de entrada, muitas vezes, para a corrupção? É um contrassenso abordar idade mínima, faixa de transição, percentual de contribuição, regra de transição, sem enfrentar em primeiríssimo plano essas e outras questões que ao longo dos governos foram relegadas. Reformar a Previdência é algo controverso em qualquer país do mundo. Uma reforma tacanha não resolveria o problema de caixa da Previdência. Precisaria ser feita dentro de um escopo ampliado, até para que daqui a cinco, dez anos, não nos arrependamos de termos sido omissos. Por fim, creio que as reformas política, tributária e fiscal, administrativa, sejam essenciais, se quisermos avançar enquanto país e nação. Como acredito também que a principal de todas não seria propriamente uma reforma, mas uma revolução - a educacional. Particularmente, a única capaz de mudar a história do país, pois cuidaria de melhorar o capital humano via conhecimento, além de ser o mais eficaz instrumento de inclusão social. Precisamos de um estadista para tal tarefa e de combinar com o povo, que é quem elege. Mais do que popularidade, os governos precisam de resultados.

 

As redes sociais revolucionaram a forma de comunicação entre as pessoas. Atualmente se pode expressar livremente sobre quase todos os assuntos. Elas têm sido usadas, inclusive, para pressionar governos e parlamentares contra projetos de cunho meramente político ou impopulares. As mídias sociais favorecem ou dificultam a forma de governar e legislar?

 As redes sociais trazem o traço da instantaneidade. Essa conectividade desperta nos seus usuários uma sensação de empoderamento na emissão de opiniões e de juízo de valor. As ferramentas tecnológicas viraram armas poderosas e essa relação com a internet pode ser medida também no envolvimento das pessoas em questões nacionais, especialmente a política. O que contribui para que essa vigilância e o questionamento constantes sobre os agentes públicos ganhe proporções. Exceção, naturalmente, para os exageros e a intolerância manifestados por vezes sob a sombra do anonimato. O novo marco civil da internet estabelecido pela Lei 12965/14, que regula o uso da internet no Brasil por meio de princípios, garantias, direito e deveres, foi um avanço. Exigirá um tempo de maturação até vermos os resultados práticos da norma legal.

Podemos dizer que a eleição presidencial de 2018 no Brasil será um “test drive”. Com o processo de depuração política em curso por conta dos efeitos da Lava Jato, o TSE enfrentará desafios.  A internet será por demais usada e os “Fake News” vão tomar conta. Se vai ser bom ou não para o amadurecimento político e para o país, somente o tempo dirá.


Araxá está sem o seu representante na Câmara Federal desde novembro de 2014, quando o atual prefeito Aracely de Paula renunciou ao cargo para assumir a prefeitura de Araxá. É importante para o município reconquistar esta vaga? Você arriscaria uma candidatura em 2018?

 Araxá, pela sua importância econômica e o papel de liderança regional que exerce, sempre terá necessidade de um representante na esfera federal. É importante ressaltar que uma representação em Brasília não se constrói da noite para o dia, pois em termos eleitorais tem que haver uma convergência política da região para o mesmo projeto. Isso exige prudência e responsabilidade. Além de preparo por parte de quem vier a postular. Não tenho essa pretensão, em função de outros compromissos de vida.

 

Pode-se dizer que você desistiu de participar da política como postulante a cargo eletivo, ou os eleitores podem esperar o seu retorno na corrida sucessória municipal?

 O bom senso indica que você nunca deve ser candidato de si mesmo. Fazer política e exercer mandatos é como que participar de uma maratona, de uma corrida de longa distância. Exige conhecer o trajeto, dispor de estratégias para vencer os obstáculos, disciplina e foco. Isso é aplicável em muito na nossa vida profissional e pessoal quando traçamos um plano de voo.  A minha torcida é para que Araxá, no tempo certo, possa ir fazendo as suas escolhas através das pessoas de bem que vivem aqui. O momento agora é de todos ajudarem no desenvolvimento da cidade, naquilo que possa fazer de melhor e de inovador.

 

Vem aí mais um Festival Literário de Araxá. Qual a importância do Fli para a nossa cidade? O que você mais curte na literatura? Quais autores que estarão presentes você mais aprecia? 

 O Fliaraxá é a grande revolução cultural que Araxá está experimentando ao longo dos últimos anos. Mais do que falar da honra de recebermos grandes nomes da língua portuguesa durante o evento, temos que mencionar a missão abraçada pelo ativador cultural e escritor Afonso Borges. Que é justamente de colocar Araxá no epicentro e no universo dos grandes pensadores e escritores contemporâneos. Isso tem um valor intangível para a atual e futuras gerações. Por fim, gostaria de dar um testemunho: a minha filha Victória Maria, hoje com dezesseis anos, conheceu o FLI com dez anos. É embaixatriz do Festival por conta da generosidade do Afonso e do seu envolvimento. Nesse período cresceu como pessoa, descobriu um mundo diferente e que tem lhe agregado conhecimento e boas amizades.  Ela fica contando os dias no calendário, esperando pelo Festival Literário de Araxá, com os olhos atentos a tudo e a com a alma respirando leve.

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