Segunda Feira, 18 de Dezembro de 2017
 
 
Mia Couto, o mais mineiro dos poetas africanos
16-11-2017

Após quase uma hora de explicações sobre o Brasil, Moçambique e mudanças na língua portuguesa, da platéia se ouve o poema “O amor, meu amor”, que Mia Couto escreveu para sua esposa, Patrícia. No painel que encerrou o primeiro dia do Fliaraxá, o escritor africano, homenageado desta edição do festival, reconheceu que a sua condição de poeta é, de longe, o que delimita a sua compreensão do mundo.

Essa condição ele teria aprendido observando o pai, o também poeta Fernando Couto.  “Meu pai nunca me disse ou a algum filho para ler um livro, mas a forma como ele nos ensinava sobre a vida era só poesia”, explicou. “Tenho dificuldade de trabalhar a escrita de forma diferente, só como funcional, como mera descrição”. Se o pai foi marcante em sua obra, as mulheres talvez tenha sido mais. E não só Patrícia ou sua mãe. Mia se notabilizou por expressar e defender a tradição das contadoras de história, prática ainda comum nas cidades de Moçambique. “Algo que nenhum Governo conseguirá tirar de nós”.

O escritor agradeceu a homenagem que Araxá lhe prestou. Disse que será difícil retribuir esses momentos especiais que estaria vivendo. Falou sobre humildade, que lhe serve como instrumento de trabalho. “Só sou escritor por que escuto ou outros, o que inevitavelmente me força a ser mais humilde”. Disse ainda que essa postura de ouvinte, um tanto quanto desconfiado, o trouxe mais próximo ao Estado. Anos atrás, um amigo lhe disse que, se ele tivesse nascido no Brasil, a sua cidade natal estaria em Minas Gerais.

Do Brasil, citou algumas referências, como Guimarães Rosa e Jorge Amado, e lembrou episódios antigos, entre eles um evento no Rio de Janeiro. Anos atrás, no lançamento de um livro na capital fluminense, a sala não comportou o alto público que compareceu ao local. Do lado de fora, os que não entraram organizaram um evento próprio, barulhento. “Parecia tão divertido que fiquei com vontade de me juntar a eles”.

Ao longo da semana, Mia Couto participará de outros eventos no Fliaraxá. Do lado de dentro ou na área externa do Grande Hotel, o mais mineiro dos escritores africanos participará de toda a festa.

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