Postado em: 22/11/2021

Raphael Borsatto

O engenheiro que tem paixão pela música

Arquivo Pessoal

Raphael Curso Borsatto tem 36 anos, é natural do Rio de Janeiro, mas araxaense de coração. Mora na “terra de Beja” desde os cinco anos de idade. Engenheiro Civil, é também músico instrumentista formado pela Escola Municipal de Música Maestro Elias Porfírio. Suas especialidades são a flauta e o saxofone.

O despertar da musicalidade aconteceu cedo, por volta dos quatro, cinco anos, graças à influência do pai, que era músico e teve bandas na adolescência. “Sempre ouvimos música juntos nos finais de semana. Ele não era músico profissional. Apenas tocava em bares na noite, no Rio de Janeiro, mas não levou a carreira musical muito adiante. Quando viemos para Araxá, ele redescobriu essa paixão e trabalhou como professor de música em algumas escolas, inclusive prestou serviço para a Prefeitura como professor”, conta.

De acordo com Raphael, o exemplo paterno foi vital para que surgisse nele o interesse pela música. “Minha paixão pela música foi em casa. Meu pai reunia amigos nos finais de semana, para cantar, e eu estava sempre presente. Aí, foi surgindo minha paixão”, afirma.

O músico acrescenta que, com o saxofone, a atração foi imediata. “O saxofone foi paixão à primeira vista, através da influência de um saxofonista americano chamado Kenny G. Ao ouvir algumas músicas dele, pensei: ‘Nossa! É isso que eu quero! Quero tocar esse negócio aí!’ Eu ainda não tinha nem conhecimento de qual instrumento era”, diz.

NA FLAUTA

A princípio, o interesse inusitado não foi levado muito a sério. “Meu primeiro instrumento foi o sax. Quando fui à Escola de Música, meu pai já conhecia alguns professores, como o Tio Paulinho, esse pessoal das antigas. Aí, me apresentaram todos os instrumentos. Passei pelo teclado, pelo violão, pela flauta, em todos os instrumentos, porque o saxofone não era uma coisa comum para uma criança de cinco anos querer aprender. Diziam que ia ser fogo de palha e me mostraram todos os instrumentos. Mas nenhum me chamou a atenção. Até que o Reizinho, que foi meu primeiro professor, disse: ‘Vamos ver se você leva jeito’. Soprei lá e saiu alguma coisa. ‘Ele disse: ‘Tudo bem, vamos começar’. Naquela semana, iniciei as aulas, com cinco para seis anos, e estou até hoje tocando sax”, relata.

Raphael estudou durante seis anos na escola, período durante o qual fez parte de grupos, estudando teoria musical. “Quando tinha 12 anos, fiz um estudo paralelo no conservatório Cora Pavan Capparelli, em Uberlândia. Amigos me levaram para lá, durante um ano. Nesse período, dei uma pausa nos estudos e fiquei somente por conta de trabalhos profissionais. Estudava por minha conta, assistia a palestras. Naquela época, a internet não era uma coisa muito acessível. Buscava informações com conhecidos. Alguém que conheceu alguém, que conhece alguém que sabe como faz. Íamos pesquisando dessa maneira. Depois, veio a possibilidade de fazer o curso técnico na Escola de Música, que até então não tinha curso de sax. Só para flauta. Assim, me formei tecnicamente como flautista”, explana.

CURSO DE SAXOFONE

Ciente da carência da Escola Municipal de Música, Raphael se debruçou sobre o problema, visando a saná-lo. “Pela experiência e por ter o curso técnico de flauta, sugeri e implantei o curso técnico de saxofone na escola. Participei da elaboração da Ementa, da eleição dos livros, dos métodos. Deixei essa sementinha na escola. De aluno, passei a trabalhar lá, com muito orgulho. Já são 14 anos. Permaneço professor de saxofone e flauta e dou algumas aulas no curso técnico. Sou professor de harmonia e informática musical. Utilizamos o computador para facilitar a nossa vida”, comenta, bem-humorado.

Hoje, o artista não consegue imaginar a vida distante da arte. “Como comecei na música aos cinco anos, não me imagino sem ela. Isso, desde o início, quando levava meu violão para as festinhas de adolescentes. Desde muito cedo eu já trabalhava profissionalmente. Muitas vezes, meus pais tinham que ir, me acompanhar aos shows porque eu não tinha autorização para frequentar o Oca da Ilha. Só poderia ir com meu pai ou minha mãe. Era o jeito de eu trabalhar”, relembra.

Raphael se mostra extremamente grato pelo caminho que decidiu trilhar. “Profissional e pessoalmente, a música me proporcionou coisas que, se não fosse músico, não vivenciaria. Um exemplo bobo: hotéis que eu frequentei, trabalhando. Eu não teria condição de me hospedar se não fosse através da música. Inúmeras cidades que eu jamais conheceria se não fosse por ter tocado nelas. A transformação cultural extremamente importante, direta e indiretamente. São festivais, shows em que você tem contato com outros músicos, de outras realidades, outras regiões. Participei de um festival - o mais recente, em Uberlândia – em que tinham músicos do Brasil todo, inclusive da América Latina. Tinham músicos mexicanos, chilenos. Essa interação foi única e, com certeza, se eu não fosse músico, se eu não estivesse inserido nesse contexto, talvez não tivesse a oportunidade de estar vivenciando essas experiências. É muito gratificante você estar trabalhando com alguma coisa que te traz prazer. Eu sempre digo: ‘se me dá tanto prazer, eu nunca estou trabalhando’. É muito isso. A gente sempre se diverte, rodeado por amigos. É muito bacana. Nas bandas das quais faço parte, não tenho só colegas de trabalho. Tenho amigos, pessoas com quem convivo, de dentro de casa, que passaram a fazer parte da minha vida e estão comigo desde que eu me entendo por gente. Muitas delas estudaram comigo na Escola. Formamos algumas bandas, cada um em sua área, mas recorrentemente nos encontrando”, explica.

VALORIZAÇÃO

Para o músico, a arte tem importância fundamental na vida humana e precisa ser valorizada, primeiramente pelos próprios artistas. “A grande questão que eu vejo é que nunca tivemos ideia do quão é importante a arte, em si, é para a Humanidade. Imagine toda a população mundial dentro de casa, sem poder sair, sem uma música, sem um show tipo live, um bom livro ou uma série de televisão, um bom filme. As consequências da pandemia poderiam ter sido muito mais devastadoras do que foram. A sorte é que tínhamos acesso à arte, à cultura. O que seria mais importante, não só para quem consome a arte, mas, mais do que tudo, para quem a produz, é a valorização dela. Essa valorização precisa partir do próprio artista. Eu me insiro numa linha de pensamento de que a arte precisa ser valorizada, a princípio, pelo artista. O artista não pode chegar de qualquer jeito. Tenho vários amigos, excelentes músicos, músicos ímpares, com um talento, uma versatilidade. Eles já chegam sem ter noção do que podem oferecer para o contratante, seja A ou B. A valorização tem que vir do artista. Ele é muito carente nesse aspecto. O Trabalho do artista começa quando ele se dá valor. Eu espero que, daqui pra frente, tenhamos uma mudança de pensamento e que haja valorização, já que a importância que a arte tem está mais clara do que nunca. Fico imaginando o que teria sido a pandemia sem uma válvula de escape. Agora, aos pouquinhos, as coisas estão se flexibilizando, alguns locais já têm shows com presença de público. Musicalmente falando, a arte precisa de aproximação, contato. É sedenta de energia. Não existe arte sem o público alvo. Espero que as coisas voltem ao normal, que tenhamos shows, peças de teatro, música ao vivo, seguindo todos os protocolos, mas que em breve estejamos todos juntos, fazendo o que a gente mais gosta, contagiando o público e sendo contagiado por ele também”, finaliza, esperançoso.

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